Sábado, 11 de Julho de 2009

É isso...


Até mesmo uma gripe tira de campo um Eliminador de vírus Klingon que sente simpatia por antibióticos. Esse é o mal dos que vivem na selva de concreto: trocam oxigênio puro por fumaça de escapamento e/ou eucalipto pela alopatia.
E sim... minha árvore é de plástico.
Não, não é biodegradável.
Passar bem!

Sexta-feira, 3 de Julho de 2009

Psittaciforme

(Foto de Rubens B.)

Joana presa em casa, na escuridão se estanca de si. Joana que mal mexe o braço direito envolto em tipóia macia de algodão. Joana que observa seus cinqüenta pássaros em seu apartamento escuro de cinqüenta metros quadrados. Essa Joana, que assim como eles não aprendeu a voar. Ela mesma, a menina-moça, tem luz azul nos olhos – reflexo da geringonça que devora no silêncio sua visão –, engole seco, mal consegue respirar. Joana acorrentada que traga suas dores sem expirar fumaça; precisa trocar os passos, calçar os sapatos, precisa voltar a andar. A menina que ao recolher migalhas rasteja pelos tacos, e prolonga os seus bits e os seus bytes, com ares de quem se deixa ao Deus-dará. Embora consciente de que o seu azul será outro, aceita a canção dedilhada que vem abrir-lhe as feridas. Sua canção é de poucos acordes, de gosto amargo e notas ébrias de blues que estranho, estranho, tem cheiro de mar. Joana sorve suas notas com fúria, sorve aos lábios secos sem distinguir cor ou sabor. Ela, que de tanto excremento dos bichos inalar já quase não sabe quais sentidos usar. Joana, que sem asas e passos sente sozinha o mistério que a acoberta, e cúmplice da noite a faz colecionar as penas, todas elas, que caem dançantes embolando o seu cabelo; ela que sozinha preenche as rachaduras do teto, entende mais que o povo da rua sobre a solidão aviária existente – “Mesmo quem voa, cai só. E só...” Joana prisioneira de si mesma, embaralha seus números, tece cordas e nós. A menina-ave que assiste à TV sem som, que prefere a canção dos alados. A ave que não se chama Joana, que não tem nome, idade, razão. Ela que sonha miúdo, que sonha acordada aspirando parágrafos, e depois implora por mais deles, mas desprovidos de repetição. Joana-menina-moça, Joana-sem-nome só quer se livrar de todo o peso daquele algodão; Joana-ave que pragueja sua tipóia e escancara as suas janelas, sem abrir os braços em cruz, sem esquecer os bits e bytes. E penas. E canção. E tacos..., os seus metros quadrados. Joana-sem-nome deseja perder as contas, quer ser passarinho. Joana, frágil Joana, que a cada manhã recolhe os seus pedaços junto à sujeira do ninho.

Quinta-feira, 2 de Julho de 2009

- Aritmética da repetição -

Quarta-feira, 1 de Julho de 2009

Suor nos dedos

video

Gosto de escritor que metralha com palavras, gosto de
escritor que sonha à luz do dia.

Gosto de escritor que sangra a alma, gosto de
escritor que ousa ser Ícaro.

Gosto de escritor que não respeita estradas, gosto do
risco da contramão.

Gosto de escritor que tem suor nos dedos, artíficie
descomedido nas doses de transpiração.

Gosto de escritor de mãos firmes; que afaga os
cabelos e aperta o estômago na mesma proporção.

Gosto de escritor que descontrói o mundo com suas
verdades e dúvidas bem abertas na palma da mão.

Segunda-feira, 29 de Junho de 2009

- The Times They Are A-Changin' -


"Come gather 'round people
Wherever you roam
And admit that the waters
Around you have grown
And accept it that soon
You'll be drenched to the bone.
If your time to you
Is worth savin'
Then you better start swimmin'
Or you'll sink like a stone
For the times they are a-changin'..."

Não presenciei a morte de J.F. Kennedy na Avenida Central. Não assisti à chegada do homem à lua, em tons de cinza pela TV. Não protestei ao lado dos meus irmãos de ideologia contra os imbecis da marcha anti-guitarras elétricas. Não apanhei dos Militares, não dei meu sangue e voz em defesa da liberdade estudantil. Não pintei meu rosto com revolta e cores de nação diante do Congresso Nacional.
Não fui herói.
Mas eu vi fotos do planeta vermelho pela TV em profusão de cores. Acompanhei notícias da morte de Lady Di nas páginas baratas dos jornais. Assisti em tempo real quando dois aviões se chocaram contra um dos maiores símbolos do poder capitalista. Caminhei ao lado dos meus iguais na Avenida Central, estampando nas cores do "arco-íris" a importância de saber que vozes unidas tornam-se uma só, e os direitos civis devem pertencer a todos nós. Eu vi os sonhos combalidos dos que deram o sangue por um pouco de paz - eu caminho por ruas cujas paredes estão manchadas de sonhos partidos. Eu acessei pela Internet uma gravação via celular que registrou o enforcamento de Saddam Hussein. Eu vi os tablóides anunciarem o fim de um ícone chamado Michael Jackson.
Eu vejo e sinto - todos os dias (quando abro os meus olhos de anti-herói) - histórias seguidas de histórias. O desdobramento carrega o ar. Eu vejo e sinto o fluxo ininterrupto. As bifurcações infestam os cabos de eletricidade. Eu ouço o tic-tac do tempo, e ouço o tic-tac de corações que lutam contra ele.
Talvez você não saiba. Mas os tempos, eles estão mudando.

Sexta-feira, 22 de Maio de 2009

(7 Perpétuos & 7 Contos de Ilusão - Parte VII)


E uma página foi virada no velho livro de Destino...

14 DE MARÇO – Diário, a frase que não saiu da minha cabeça: “Encontraram o corpo ontem à noite...” Te explico, diário. Perguntei às garotas do 3º ano o que tinha acontecido. “Lembra daquele zelador que limpava as salas no ano passado? Aquele esquisito que parecia um zumbi... Encontraram o cara morto ontem à noite. Um dos policiais que arrombou a casa do cara é irmão da Sel, ficou horrorizado com a cena.” Eu perguntei que tinha de tão terrível assim num cara morto. Elas ficaram petrificadas: “Dizem que o cara tava trancado no quarto. Morreu em frente ao espelho, de sede, fome, essas coisas. O jeito que a Sel contou... o cheiro do quarto, a mãe do cara na cadeira de balanço, tinha morrido um tempo antes e o cara nem se importou... eu vomitei só de ouvir.” As garotas tavam muito abaladas, diário; a história era mesmo cabeluda. Que mundo maluco é esse?! Foi isso que eu pensei naquela hora. É estranho se você pára pra pensar. Num belo dia você acorda, olha tudo ao seu redor e tudo parece bem; você vai às aulas, vai ao cinema, dá uns amassos num cara gato que aparece e tá tudo demais. Daí você dorme e no dia seguinte você acorda, olha tudo ao seu redor e tudo é merda; não consegue entender a razão de ser de aulas com teorias ultrapassadas porque tudo parece sem importância, só encontra gente te encarando por onde passa e quando pensa que a vida não pode ficar mais estúpida você ouve dizer que um cara magrelo e esquisito que você sempre achou estranho morreu de um jeito bizarro.
16 DE MARÇO – A vida é uma merda, diário. Não aguento mais acordar e viver essa vida que eu levo. O tempo todo eu penso na minha irmã, nas cagadas que eu sempre faço. Por que eu sempre machuco as pessoas que eu amo? Onde tá o manual definitivo de sobrevivência?
19 DE MARÇO – Diário, é tudo muito sem sentido e banal. Bem-vinda ao mundo da histeria, é o que eu me digo todos os dias. Preciso sempre me lembrar que expectativas e otimismo barato são pros que adoram aquela maldita Pandora; e quando digo isso não me refiro aos pecados. Magnífico! Só não quero que contem comigo pra sacudir bandeiras brancas, já disse! Branco suja.
26 DE MARÇO – Choveu hoje, diário. O povo no colégio ainda só falava no zelador magricela e eu pensava na minha irmã que tá presa. Minha irmã, tão linda... machuquei tanto a minha irmã e chorei tanto, tive vontade de acabar com a minha vida quando vi os olhos dela, quando vi aquele vaso espatifando no chão. Eu não queria que as coisas tivessem sido desse jeito. Eu amo demais a minha irmã, e sentir a dor e a decepção naquele olhar... foi o pior momento da minha vida, diário. Ele tinha me embebedado, o noivo dela, e com aquele jeito de garanhão não resisti e fiz a maior burrada da minha vida. Ele pagou o preço, por ele e por mim e a polícia encontrou o quarto do motel todo ensanguentado. Chorei, não pelo desgraçado, mas pela minha irmã, pela loucura e desespero que tomaram conta dela. E tem gente que consegue ver sentido nas linhas...
7 DE ABRIL – Tinha ido ficar com umas tias por uns dias, mas não deu certo. Detesto aquela gente hipócrita. Fui então ficar com a minha avó por uns tempos, mas não conseguia ficar dentro de casa, tudo lá cheirava à alvejante. Numa das andanças reencontrei o Daniel. Tava lá na praça vendendo coca pros chegados dele. “Qual é a boa, menina?”, ele abriu um sorriso. Tudo na merda, Dani. Que mais eu podia dizer? Até a porra da cidade parecia concordar comigo naquela enxurrada. O Dani tava conversando com um loiro gatinho que parecia ser amigo dele. O loiro tava falando que não cheirava mais, que tava em outra. Eu ri e fui pra casa do Dani cheirar com ele.
10 DE ABRIL – Transei com o Dani numa escada, diário. E o mais louco é que eu me senti o tempo todo vigiada, como se nas escadas do prédio tivessem câmeras, tipo as de elevador, e o porteiro via tudo, me deu até uma piscadela na minha viagem paranóide, aquele velho pervertido.
13 DE ABRIL - Fui visitar minha irmã e ela tava pálida e não consegui olhar nos olhos dela. Senti o maior vazio da minha vida e se tivesse um pouco mais de coragem me atirava contra um carro.
15 DE ABRIL – Dani disse “eu te amo”, logo após cheirar uma carreirinha. Será que o “eu te amo” era pra mim ou será que era pra carreirinha? DúViDa CrUeL, diário...
18 DE ABRIL – Não era pra mim o “eu te amo”. Dani me disse que não queria mais. E eu tava com tanto tesão que até transaria com aquele loirinho que vi conversando com ele dias atrás. Tinha ido comprar uma revista e ele tava lá na banca comprando cigarros, parecia que nunca tinha visto um maço de cigarros na vida. O cara tava muito estranho, nem me reconheceu e foi embora no meio do chuvão que tava caindo. Vai entender...
2 DE MAIO – Finalmente, uma tarde linda. Hoje fui na Praça da Liberdade e fiquei sentada vendo um velhinho alimentando os pombos. Senti paz naquela praça. Mesmo quando começou a chover, mesmo toda encharcada eu tava em paz, e quando tava atravessando a rua pra voltar pra casa da minha avó, reparei numa menininha ruiva que tava num carrão com a mãe, ela não parava de apontar pra praça e quando olhei pra onde ela apontava vi uma porrada de borboletas voando perto do canteiro de lírios que tem lá. Foi lindo.
12 DE MAIO – Conheci um cara muito legal. É meio nerd, até demais pro meu gosto. Mas é legal. A gente se conheceu na biblioteca, tive que ir lá pegar um livro pra minha avó, ela gosta dos livros da Danielle Steel! Passei um carão porque a fila tava gigante e a mulher do balcão gritou na maior altura: “Esse livro da Danielle Steel, é você quem vai levar? Assine aqui, por favor!” Daí ele riu e me disse que já tinha passado por aquilo uma vez quando foi pegar A história sem fim. Ele adora esses livros, viajados demais pro meu gosto, ou infantis demais, mas não vou falar isso com ele porque tô realmente gostando do cara.
8 DE JULHO – Diário, não imaginei que pudesse me apaixonar e sentir o mundo tão bonito e bom. Até os problemas ficam mais suportáveis quando tô com o Douglas, e ele me anima sempre que tô pra baixo. A gente passa a tarde no quarto dele ouvindo The Clash e lendo as HQs malucas dele. Às vezes me pego observando ele quando tá lendo alguma coisa... é boa a sensação.
29 DE AGOSTO – Visitei minha irmã, ela parece melhor, fisicamente pelo menos. Eu pedi perdão, ela olhou pra mim, como se não me enxergasse e começou a chorar... Amo tanto minha irmã, diário...
11 DE SETEMBRO – O Douglas teve um sonho estranho, senti o suor dele na minha nuca. Continuo tão apaixonada.
14 DE SETEMBRO – Diário, tô ficando preocupada com o Douglas. Ele anda muito mal humorado e parece que não tira aquele sonho da cabeça. Chamei ele pra assistir algum filme no cinema, talvez ele fique mais animado.
14 DE SETEMRO – Diário, a vida é maluca demais. Lembra do que eu disse sobre a vida ser maluca, séculos atrás? É verdade! Num dia tá tudo na boa, noutro acontece alguma coisa do nada e pronto! Fomos no cinema, o Douglas tava animado demais, você tinha que ver. Queria porque queria assistir a um daqueles filmes velhos pra cacete que tavam sendo exibidos num cinema antigaço que eu nem conhecia, mas como eu queria muito que ele ficasse legal topei. O filme era um porre, aqueles filmes preto e branco que ninguém aguenta, tanto que o cinema tava vazio... ou quase. Tinha um cara, diário... um cara que morreu durante o filme... Eu fiquei aterrorizada, disse pro Douglas que o cara tava quieto demais, o filme já tinha acabado. Ele disse que o cara tava só dormindo, mas eu sabia que tinha alguma coisa ali. O cara não tava dormindo, diário. O cara não tava dormindo... Não entendo mais nada.
15 DE SETEMBRO – Diário, tô cansada de tentar entender. É tudo tão sem sentido! Nada faz sentido com nada e nada tem propósito, é como se não existisse nenhuma ligação... tudo suspenso, tudo assim, no ar... Queria saber até quando vai ser assim...

*

E em seu imenso jardim, onde as trilhas se bifurcam em maestria simétrica, onde tudo se encontra e tudo se perde, Destino dos Perpétuos virou mais uma página de seu grande livro...

Quinta-feira, 21 de Maio de 2009

(7 Perpétuos & 7 Contos de Ilusão - Parte VI)


E Morte deu o ar de sua graça, em uma matinê...

A noite parecia veludo azul-marinho e as estrelas estavam acesas como chamas tremulantes. Senti um arrepio estranho. Não costumo sentir arrepios. A rua estava toda molhada, cheia de carros barulhentos, derrapando, buzinando. Pedestres passavam apressados por mim; pessoas desprovidas de cores, rostos, metidas em grandes casacos ou sobretudos escuros. As árvores balançavam agitadas e as folhas se estendiam por entre as rachaduras da calçada como um tapete ondulado e vivo. Enxuguei minhas lágrimas. Não queria que ninguém me visse chorando. Não que eu conhecesse alguém dessa cidade, mas... não queria que me vissem chorando, o pobre estranho encharcado até os ossos. Quase fui atropelado por um carro. Não faz mal, pensei. Decidi entrar no cinema, não sei por quê. Vi as luzes, vi os cartazes, vi minhas lágrimas escorrendo no reflexo da vidraça. Engoli seco, adentrei o saguão deserto e estava feito, nada me faria voltar.
- Uma, por favor...
- Qual filme, senhor?
- Qualquer um.
A garota da bilheteria sorriu.
- Não posso escolher pelo senhor.
- Escolha, por favor. Confio em você.
Ela sorriu novamente, dessa vez corando de leve com aquele sorriso diferente, atencioso. Talvez tenha notado minha bela aparência, meus olhos cinzentos e empoçados. Mulheres gostam de homens que choram.
- Como pode confiar em mim? Nem me conhece – ela disse com uma malícia doce nas palavras.
- Por isso... não confio em quem eu conheço. Em você talvez eu possa.
Entregou a mim o bilhete, entreguei a ela o dinheiro e devolvi um rápido sorriso, ou o mais próximo de um sorriso que eu consegui forçar. Segui pelo corredor escuro, o vermelho das paredes me aqueceu. Entrei na velha sala de exibição, certamente um antigo teatro, há muito desativado. O palco ainda estava lá intacto, a tela protegida pelas cortinas aveludadas e puídas. As poltronas vermelhas me convidaram com gracejo, aceitei o convite. O lustre antigo despertou encanto, me perdi em seus detalhes. O tempo se arrastou dolorosamente. É impressionante como o tempo é relativo e cruel. E chorei, sem conseguir controlar, sem conseguir conter a imensidão da tristeza presa na minha casca. Molhei meu rosto de sal enquanto o velho projetor era magicamente acionado. Escutei a película rodando, aquele som me deixava mais calmo. As cortinas foram abertas e vi de forma embaçada a mágica sendo feita bem diante dos meus olhos. O filme era antigo, preto, branco. Cinza. Jazz repentinamente nos ouvidos e não demorei a entender o Paris Blues do título. Paris Vive à Noite... Tradução engraçadinha. Surgiu um pub. Paris, bela cidade das luzes. Paul Newman como um jazzista, obviamente apaixonado pela vida boêmia. Quem não seria? O sal misturou-se à água da chuva na minha camisa. Por que viver machuca tanto? Sempre tive a impressão de que esse mundo parece ser feito de pequenos acidentes e só a beleza do nascer do sol ou da alma preenchida pelo amor incondicional parecem estar acima de tudo, o resto não se sustenta. E quando o brilho do sol escapa, e quando a alma parece vazia, o que resta? Enxuguei o sal e olhei distraidamente em direção ao corredor da sala. Observei uma silhueta recortada contra o fundo vermelho. Uma garota... Apressou os passos, como se estivesse atrasada para algum compromisso. Impressionado com sua palidez notei os revoltos cabelos da cor do azeviche, os olhos negros grandes e radiantes, a boca pequena e carnuda pintada de negro como os olhos. Vestia uma saia leve e rodada como as das bailarinas, só que era desfiada e negra como a blusa. O amuleto prateado em seu pescoço cintilou – me pareceu um daqueles símbolos egípcios, qual seria? – e voltei meu olhar em direção à tela. Ela parou, ficou imóvel por alguns segundos e por fim sentou na poltrona ao lado.
- Começou faz muito tempo?
- Não – eu disse, tentando esconder as lágrimas.
- Ótimo! Os filmes anteriores atrasaram. Esse é problema das matinês... Ninguém merece esse efeito dominó...
Minutos pareceram horas sem fim e senti a estranha inquietude de quem é afetado por algo inesperado e surreal. Ela me olhava admirada, olhava a tela, escutava o som, percebia o sal das minhas lágrimas escondidas, parecia fazer tudo ao mesmo tempo, tudo embalado no mesmo ritmo doce e caloroso. Impossível...
- Por que você tá chorando? – perguntou em algum momento.
- Não sei.
Por que queria lhe contar tudo, revelar meus segredos mais soterrados, mais dolorosos? Por que queria lhe abrir minha alma em desespero? Não faço idéia. Existem coisas que sequer consigo compreender.
- Você sofreu, por muito tempo.
- Por que diz isso?
- VOCÊ diz isso, de algum jeito; não pelo olhar, não precisa esconder seus olhos de mim. Muita gente procura a verdade nos olhos.
- É, pode apostar.
- Eu não.
Observou meu rosto com seus olhos negros e senti pura intensidade.
- Já tomou sorvete de carne moída? Dizem que existe uma sorveteria de mil sabores na Tailândia que serve sorvete de lula, camarão, frango e carne moída...
- Você é biruta.
- Meu irmão mais velho sempre diz isso. Mas eu sempre digo que loucura é usar o mesmo capuz ao longo de tantos milênios! Tudo bem que ele não é chegado em vida social, mas... putz! Ninguém merece suportar uma criatura tão alienada no que diz respeito à moda antropomórfica! E o pior é aquele cheiro de mofo nas reuniões de família, é a gente que aguenta...
Ela notou meu espanto. Sorriu.
- Veja só como sou boba, falando de coisas que você não pode ainda compreender, talvez nunca compreenda.
- Você é muito estranha... e... me passa uma sensação que é estranha também... e eu acho que nem consigo definir o que você me faz sentir.
- Definir não é tão importante, sabe... talvez seja sentir mesmo. Quando alguém sente, expõe um pedaço terno e obscuro da alma, estilhaços de verdade que só existem na palma da sua mão. Simples e caótico assim. É como se só o sentimento verdadeiro aparecesse em meio a esse fluxo, e pronto! Como se todo o resto não tivesse tanta importância, como se fossem sombras projetadas em cantos vazios. Ah! Já viu Cantando na Chuva? É lindo aquele filme, só não é melhor que Mary Poppins! E você falando de sentir, e tudo mais, eu me lembro desse filme na hora! Sabe o que achei mais brilhante? Aquela cena em que o Gene Kelly leva a Debbie Reynolds naquele galpão e meio que cria um pôr-do-sol pra ela com luzes e ventiladores e tudo o mais. “Aquilo é tão falso!”, é o que todo mundo pensa. Pô, sem noção criar um pôr-do-sol tão artificial pra dizer “eu te amo”, né! Mas aí você vê o Gene cantando You Were Meant For Me pra Debbie e é só amor porque o que eles sentem é real, a sintonia ultrapassa a mise en scène e toda aquela parafernália fica pequena diante do que eles tão sentindo, entende?
- Mais ou menos.
- Puxa, fui tão filosófica assim?
- Não. É só que... não vi esse filme.
- Hum. Entendo. Bom, não faz muita diferença. Só queria que você se sentisse bem.
- Você me deixa bem.
- É, muita gente diz isso, mas não me canso de ouvir.
Atirou um sorriso zombeteiro e ofereceu sua mão delicada, pálida e fria e senti nela um calor que não deveria estar ali. Ficamos assim, de mãos dadas e sorrisos estampados até o projetor declarar o encerramento, o fim da grande mágica.
- Chegou a hora – ela disse.
Pura doçura...
- Gostei de assistir Paris Blues com você. Foi a melhor sessão do dia, sabia?
Foi então que ela se pôs de pé e me guiou gentilmente em direção ao corredor vermelho. Olhei para trás, vi meu corpo estirado na velha poltrona de camurça, parecia pesar sobre ele a dor e o simples fardo da vida que agora inexistia ali. Saímos do cinema e notei que ainda chovia. Chorei e não me importei. Não pelo fato de as pessoas não conseguirem me ver, mas porque estava com ela, acabávamos de sair do cinema e o céu nunca havia me parecido tão alaranjado.

Terça-feira, 19 de Maio de 2009

(7 Perpétuos & 7 Contos de Ilusão - Parte V)


E Sonho tinha estrelas mortas em seus olhos...

Pensei se tratar de um sonho. Pensei estar mesmo dormindo. Por um segundo me pareceu obrigatória a necessidade de não acreditar, mas era inevitável, possibilidade e descoberta. Sim, porque você sabe quando está acordado, você sabe quando o impossível acontece e muda tudo ao seu redor – coisas assim a gente não contesta e “ponto final”, como diria minha avó. Havia deixado de vez meu quarto escuro e não poderia mais tocar as paredes negras ou as cortinas verdes; não poderia mais ouvir The Clash quando quisesse e não poderia mais folhear os gibis do Dylan Dog com suas páginas amarelas e seu cheiro de naftalina. Nada disso importava, não mesmo. Não sentiria falta do que não precisava mais, esse é o lance das verdadeiras necessidades: descobrir as falsas e abrir mão delas sem olhar pra trás. A vida é feita de escolhas, não é? Gostei de pensar que eu iria agarrar aquela possibilidade improvável e fazer daquele meu momento de consciência plena minha fuga grandiosa. E pensar que tudo começou na noite em que fui ao hospital psiquiátrico. A velha no corredor parecia sedada, seus olhos pareciam de vidro. Ela disse com todas as palavras que havia visto o homem de olhos negros no sonho. Porra! Eu não estava pronto pra tudo aquilo! O choque foi tão grande e inesperado que eu me vi mergulhado em escuridão, perdendo a consciência naquele momento de confirmação. Naquele hospital branco e frio eu caí. Chamaram minha irmã. Acordei me deparando com seu jaleco branco. Minha visita inesperada e o que aconteceu no corredor fizeram com que ela ficasse preocupada, era nítido no olhar. Veio o sermão de irmã mais velha e toda aquela merda que um cara de 16 anos detesta ouvir, mas isso não era importante, nada disso importava. Eu sei bem o que senti e isso me bastava. Não vi mais a velha sedada e não precisava de confirmações através do seu olhar louco e vidrado porque sabia que existia uma verdade em tudo aquilo. Tudo pareceu se encaixar no grande quebra-cabeças que eu havia montado com o passar dos anos e decidi voltar pra casa. Ela ligou, minha irmã. Ligou do hospital várias vezes perguntando por mim, se eu havia perdido novamente a consciência ou se eu parecia doente, coisas assim. Comecei a me sentir perseguido e soube que não era paranóia. Todos seguiam meus passos, receosos de que algo de anormal pudesse acontecer. Aconteceu, e lá estava eu, pronto para o grande plano, pronto para o inevitável. A velha estava certa, eu estava certo. Alguém rege mesmo nossos sonhos, não sou louco como pensava e talvez a velha também não seja. Talvez os loucos estejam aqui fora; talvez a verdadeira loucura seja o que aceitam como normal e a vida não passe de um grande circo armado em lona invertida. Adormeci e sabia que o encontraria, o homem dos olhos negros. Desde pequeno me sinto atraído pelo fantástico, pela imaginação que anda sempre ligada aos sonhos e ao que chamam de inconsciente. Como não se interessar pelos sonhos? Passamos um terço das nossas vidas caminhando pelo suposto reino do sonhar! Enigma, puro enigma. Os anos passaram, tudo à minha volta mudava como nos filmes frenéticos, aqueles com edição digna de MTV. Será que alguém sabe realmente o quão doloroso é ver o mundo que te cerca passar intocável e rápido como um raio? Estátuas ficam nas igrejas e cemitérios, onde o tempo é suspenso. Odeio igrejas e cemitérios. Lembro bem da antiga biblioteca da cidade, cheirava à acetona, talvez em função da bibliotecária que passava o dia fazendo as unhas. Lá encontrei livros antigos e me vi fascinado pelo que encontrava nas páginas coladas pela falta de uso. Li sobre Morfeu, o deus dos sonhos que na mitologia grega era filho de Hypnos, deus do sono. Morfeu aparecia na obra de Ovídio chamada Metamorfose. Li toda ela em dois dias. Li sobre Bés, o deus egípcio protetor dos sonhos e sobre Iurupari, o deus dos sonhos do Amazonas. Li por anos a fio todos aqueles livros, nerd em altíssimo grau com todo orgulho (a quem quero enganar?). Absorvia tudo o que conseguia e logo que terminava um livro pegava outro sem me importar com as mãos doloridas e a ardência nos olhos. Com o passar do tempo fui percebendo no que lia uma estranha conexão, todas essas lendas antigas pareciam de alguma forma se encontrar em algum ponto; percebi que o inconsciente coletivo era lindo, era real, escondia verdades. Existia mesmo nessa imensa teia um caminho que me levaria a algum lugar e a velha no hospital, a forma como disse, o jeito que seus olhos brilhavam... o que vi nos olhos da velha... Adormeci, mas estava mais desperto do que nunca. Colocaria o plano em prática e precisava estar consciente, sabia disso. Senti a grama sob meus pés, era etérea, macia e verdejante de um jeito imaterial. Ouvi os pássaros e seu canto me pareceu doce e mágico. O céu era roxo, escuro e estrelado e notei que montanhas altas e rochosas me cercavam formando uma espécie de gaiola de proporções assustadoras. Foi então que vi a trilha estendida bem diante dos meus pés, um caminho estreito feito de pedras que me pareceu tão simpático e convidativo que veio à memória os tijolos amarelos da trilha de Oz. Segui o caminho de pedras e me surpreendi ao ver que ele conduzia à única abertura entre a imensa prisão escarpada. A pequena abertura me levou a um túnel escuro, e por horas que me pareceram dias ouvi apenas o gotejar úmido e minha própria respiração. Vi um brilho fraco bem adiante e agradeci aos céus por não estar em uma caverna literalmente interminável. Saí por uma abertura circular e me deparei com a maior das visões que eu poderia algum dia conceber. Era um palácio, ou semelhante a um palácio, já que era mais suntuoso que todos os palácios terrenos já construídos e soterrados pelo tempo. Dezenas de torres afiadas e ameaçadoras, centenas de janelas angulosas e brilhantes; formas abstratas se harmonizavam com as formas concretas e seria impossível descrever a beleza e imponência daquele lugar perfeito e estranho. Andei pelo caminho tortuoso de pedras escuras passando por árvores grandes e retorcidas, exalavam atemporalidade em suas cascas duras. Os portões altíssimos e espelhados da construção estavam abertos e senti que poderia entrar sem que fosse visto como uma ameaça. Ouvi meus passos ecoando pelos altos corredores e cheguei sem saber como à sala do trono. Eu o veria! Morfeu, Bés, Iurupari, Sonho! Tudo seria diferente e eu sentia isso. Faria um apelo, não precisaria voltar. Minha escolha, se eu tivesse uma, seria permanecer em seu reino, onde tudo parece belo e novo, onde o mistério brota a cada instante como botões de flor e mostra como a realidade é crua e sem propósito. Ele simpatizaria com a minha causa, ficaria orgulhoso pelas minhas descobertas, pelas certezas que carreguei por tanto tempo. O trono escuro revelou sua figura e nenhuma palavra conseguiria fazer jus ao que eu vi. Olhos negros tão intensos! Era simplesmente impossível tamanha escuridão! E o brilho ofuscante, como descrever aquilo? Se é mesmo possível que a morte de uma estrela possa provocar o nascimento de outras, seus olhos deviam estar cheios de estrelas mortas. Fui me aproximando lentamente do trono, reparando em cada detalhe de sua figura, sua palidez imaculada, seu olhar soturno e suas vestes negras como a noite. Ia tocá-lo quando acordei de repente. Madrugada. Silêncio. Demorei a entender, mas entendi. Ele não permitiria. É consciente demais do seu trabalho, da sua responsabilidade e importância, sejam elas quais forem. Caminharemos todos em seu reino, mas não deixaremos os nossos lares. Há alguma verdade nisso, há algum mistério que ele jamais dirá, e terei que me conformar com isso. Seu reino será sempre o refúgio, jamais a morada. Abri em meio às lágrimas secas uma revista qualquer, dessas sobre avanços científicos e li em alguma página que todos nós, feitos de carbono, oxigênio e outros tantos elementos químicos somos poeira de estrelas mortas. Olhei para o céu lá fora e o céu estava todo estrelado.

Domingo, 17 de Maio de 2009

(7 Perpétuos & 7 Contos de Ilusão - Parte IV)


E Delirium a abraçou forte, forte, forte...

E então o papai me jogou na parede e fez coisas estranhas que me machucaram muito. Não entendi por quê ele ficou em cima de mim fazendo aquelas coisas. Eu estava chorando papai, eu estava chorando muito e o senhor nem prestou atenção. Por que continuou fazendo tudo aquilo, papai? Eu tentei fechar a boca, eu não queria apanhar por estar chorando, mas eu não consegui, não consegui. De repente o papai parou de fazer aquelas coisas e me disse que aquilo era nosso segredo. Daí ele percebeu que eu estava chorando. Ele me bateu e mandou eu parar de chorar, mas eu não conseguia, estava doendo papai, o que eu podia fazer? Jurei que não ia contar pra ninguém, ia ser o nosso segredo, ia ser o nosso segredo sim. Papai mandou eu vestir minha roupinha, me deu a mão e me levou na sorveteria. Lá eu tomei um sorvetão de morango com cobertura de chocolate e eu pensei que eu ia conseguir parar de chorar, mas eu não consegui e o papai ficou bravo de novo. Passou muito tempo e o papai não disse mais nada. Aí chegou o dia do meu aniversário mamãe me deu uma boneca de pano. Ela não tinha cabelo e seus olhinhos eram coloridos e brilhantes, um era azul e o outro era verde. Abracei forte forte forte minha boneca linda e coloquei um nome nela: Deivi. Coloquei esse nome por causa de um moço muito estranho ou uma moça muito estranha que aparece na televisão cantando de vez em quando. A gente nunca sabe se é homem ou mulher porque ao mesmo tempo que parece que tem corpo e voz de homem se veste e se pinta como mulher. Ele ou ela tem um olho de uma cor e o outro de outra, por isso achei que combinava com a minha boneca. O nome é difícil, parece inglês ou espanhol ou francês, mas pensando bem, pode ser chinês. Acho que é mais ou menos assim: Deivi Boui. O tempo foi passando de montão e eu sempre dormia abraçadinha com a Deivi, olhando com medo pra porta, com medo do papai entrar e fazer coisas estranhas de novo. Abraçava a Deivi forte forte forte e só conseguia dormir quando ela falava: “Pode dormir criança, meus olhos desiguais vão proteger você”. Não sei o por quê de ela falar essas coisas, e falou tantas vezes que eu decorei, mas eu ficava tão bem e me sentia tão protegida! Dormia e tinha sonhos bonitos. Aparecia sempre um homem nos meus sonhos, um homem branco e alto, era magro e tinha cabelo preto e bagunçado. Os olhos dele eram pretos e não tinha nenhuma parte branca, parecia o céu de noite e saíam luzinhas bem escuras deles. Eu sentia medo quando olhava aqueles olhos. Nos meus sonhos, o homem vinha conversar com a Deivi, falava pra ela umas coisas que eu não entendia e ela respondia sempre sorrindo. Quando eu acordava, esquecia tudo e só ia lembrar do sonho na escolinha, de tarde. Numa noite de chuva papai voltou no meu quarto querendo me machucar. Eu comecei a chorar e gritei gritei gritei. Ele não parou, me segurou forte e eu fiquei com muito medo. Foi aí que eu peguei a Deivi e abracei ela forte forte forte. Deivi, me ajuda! Me ajuda! Me ajuda! Daí tive o sonho mais estranho do mundo. Sonhei que a Deivi tinha virado uma menina muito estranha e bonita. No sonho ela também era careca e tinha um olho verde e outro azul, mas ela não usava vestidinho rosa, usava umas roupas esquisitas e rasgadas, uns brincos nas orelhas e no nariz. No sonho, papai chorava quando ela falava alguma coisa pra ele e tudo ficava colorido, como se aquilo não fosse sonho! Será que era? Ele chorava muito e me pedia desculpas, mas eu tive medo e não quis encostar nele quando ele chegou perto de mim. Ela falou outra coisa e apareceram muitas borboletas coloridas. Papai foi embora e nunca mais vi ele. Sabe por que eu não consigo entender se aquilo foi sonho ou não? Depois que eu acordei, papai não estava mais no meu quarto, e quando o sol apareceu e eu perdi o medo e fui no quarto dele, só a mamãe que estava lá, sozinha. Ele tinha mesmo ido embora e nunca mais vi ele. Quando voltei pro meu quarto, vi um monte de borboletas e corri pra abraçar a Deivi, abracei forte forte forte e essa também foi a última vez que vi ela porque depois que eu voltei a dormir ela sumiu. Mamãe chorou muito quando papai foi embora, disse que não ia conseguir pagar todas as contas e que a gente precisava do dinheiro do papai pra viver. Mas depois ela parou de chorar porque deram um aumento pra ela no trabalho e ela ficou muito feliz. Acho que a mamãe não amava o papai porque depois que conseguiu pagar tudo sozinha ela ficou feliz como nunca vi ela ficar. Ela começou a se importar muito comigo, sempre queria saber se eu estava bem, brincava comigo de guerra de travesseiros e era tão engraçado, assistia comigo os desenhos e sempre ouvia quando eu falava que tinha batido em algum menino da escolinha por ter me chamado de gorda - justo eu que não sou gorda, sou fofinha! Nunca vou esquecer a Deivi, a boneca mais bonita e estranha do mundo. Ela foi meu anjo da guarda, minha borboleta que me salvou e por causa dela hoje eu sou super feliz com a mamãe. Fico pensando se vou encontrar a Deivi de novo. Fico até imaginando que estou vendo ela às vezes e minhas amiguinhas da escolinha acham que eu vejo coisas. Mas eu juro que eu vi uma menina na praça ontem quando voltava pra casa no carro da mamãe e tinha alguma coisa estranha acontecendo; estava chovendo muito, muito, e ela parecia gostar muito da chuva porque estava deitada na grama com os braços abertos e parecia uma borboleta bonita com as asas abertas pro céu. Ela levantou a cabeça olhando direto pra mim e mesmo de longe eu consegui ver que um olho parecia azul e o outro verde. Ela abriu um sorriso e eu dei tchau, sorrindo também. Nunca mais encontrei uma menina como aquela, tão parecida com a minha boneca Deivi, meu anjo da guarda, a minha amiga borboleta...

Quinta-feira, 14 de Maio de 2009

(7 Perpétuos & 7 Contos de Ilusão - Parte III)


E Destruição surgiu, e apagou o meu cigarro...

“E a luz resplandece nas trevas”. A tela do pequeno notebook acendeu em azul, iluminando meu quarto, machucando meus olhos. Das caixas de som tilintava a voz arranhada da cantora morta, a MPB nunca pareceu tão triste afogada na luz azulada. Encarei a tela, sua luminosidade a me estagnar; assim perderia minha história. E essa era uma história importante, das mais intrigantes, daquelas que precisam ser contadas. Era sobre Destruição dos Perpétuos e esse era o grande trunfo. Vejam bem, os Perpétuos não são deuses, já que os deuses morrem nos corações dos homens. Os Perpétuos vivem, desde antes do primeiro passo do primeiro homem até que a última criatura vague pela pequena Terra. São sete, os Perpétuos: Desejo, Desespero (que é irmã gêmea de Desejo), a caçula Delirium (que num passado remoto foi Deleite), Devaneio (ou Sonho, como é mais conhecido), Desencarnação (ou Morte, para os íntimos), Destino que é o mais velho e por fim, Destruição. Desse último, só havia mistério; Neil Gaiman, o escritor por trás dos Perpétuos não havia revelado quase nada a seu respeito, até a tarde nublada em que as coisas mudaram, fatos somados que fizeram minha mente ligar pontes e construir significados. A idéia surgiu no carro, e veio com uma lembrança, a lembrança da tarde nublada. A avenida mergulhava em silêncio e eu mergulhava em Chico Buarque, com seu sambinha de coração aberto. As luzes amarelas dos postes encenaram belo contraste com a escuridão das esquinas e ruelas. A noite gritava frio, e não vi ninguém nas praças redondas, nem mesmo no alvo Palácio das Artes, sempre iluminado às sextas, à espera do público fiel. Sem aviso, minha mente foi inundada por pensamentos intensos, dos mais variados. Acontece sempre quando dirijo à noite, não consigo evitar. Pensamentos tão fortes que se cruzam com tamanha velocidade raramente chegam a algum lugar, e quando isso acontece você começa a questionar se vale à pena chegar a lugares desprovidos de garantias. Senti o grande impacto do cruzamento e decidi estacionar o carro próximo ao Conservatório de Música antes que houvesse uma batida. Andei ao longo da avenida deserta, ouvi o grito dos céus e ele anunciava chuva, exatamente como naquela tarde nublada. Avistei a banca iluminada na Praça 7 e decidi ir até lá, folhear alguma coisa. Encontrei jornais e revistas que falavam das guerras, da fome, das mortes e assaltos, sequestros, fratricídios, matricídios, doenças e epidemias devastadoras, imensas quantias de dinheiro desviadas no Congresso, casas derrubadas e cidades inundadas pela ira bíblica da natureza, índices altíssimos de desemprego, pessoas pisoteadas em shows e todas as desgraças possíveis e imagináveis! Foi então que me lembrei de Destruição, como se um soco tivesse acertado meu estômago; foi nessa lembrança urgente que ele invadiu minha mente, rápido, implacável. Com o peito dolorido, permiti. Veio à memória a tal tarde nublada, meses atrás, em que eu havia saído de algum bar e esbarrado em desconhecidos. Percebi um rosto familiar entre os estranhos, uma amiga dos tempos de colégio, e esbocei um sorriso de reconhecimento. Katchoo, esse era o apelido. Era linda a Katchoo, e o tempo havia lhe feito tão bem. Ali estava o mesmo olhar de doçura, o mesmo sorriso tímido. Os relâmpagos ameaçaram e fomos correndo até o sebo em que costumávamos ler todos os gibis enquanto fugíamos da escola. Lá encontramos as antigas aventuras, os antigos heróis e um belo encadernado de Sandman veio parar em minhas mãos. Contos ilustrados sobre os Perpétuos. Sensacional! Folheei pacientemente e me deparei com o inacreditável. Destruição estava ali, claro, vivo, como nunca antes! Nunca dois geeks foram tão felizes! O enigmático Destruição, o Ausente dos Perpétuos estava bem diante dos nossos olhos e tudo fez sentido! Ele estava no coração dos sóis, era a alma da fissão nuclear, e através de seu espírito destrutivo planetas ganhavam vida.
- É completamente fascinante! – ela disse abismada.
- Parece é um slogan punk: “Crie através da destruição”.
Zombei, mas... sabia que aquilo era simplesmente imperdível e mágico! A simples idéia de que Destruição não precisa ser necessariamente um fim ou algo ruim, mas a possibilidade de um novo começo, aquilo era brilhante! Voltei da lembrança com a dor intensificada que senti no peito e vi novamente a banca iluminada. Notei as primeiras gotas da chuva, caíam com suavidade. Tinha me esquecido. Algo naquela tarde me fez esquecer da história, e só observando aqueles jornais e revistas, aquelas manchetes horríveis, só assim me lembrei. Aéreo, entreguei uma nota ao vendedor e pedi um maço de cigarros. Observei aquela caixa como se nunca tivesse comprado cigarros, como se não tivesse anos antes fumado cerca de dois maços por dia. Minha mente estava dominada! Escreveria a história de Destruição e ele seria finalmente desvendado, desconstruído, como foi naquele conto ilustrado. Contaria o que foi ocultado, revelaria a verdadeira essência do paradoxo. Refiz o caminho até o carro, a chuva encharcava minhas roupas e Destruição ganhava contornos nos meus pensamentos. Subi os degraus de pedra, adentrei o hall deserto do prédio, subi os lances de escada até o segundo andar e abri a porta. Tirei minhas roupas molhadas, fui até a janela do quarto e acendi o primeiro cigarro. Traguei, o cheiro me deixou tonto; nunca me acostumaria com aquele maldito cheiro, não depois de todo aquele tempo. Liguei o a aparelho de som, fui até a cozinha e encontrei a caixa de comida chinesa aberta na geladeira. Devorei o macarrão gelado e os empanados em cinco garfadas. Deixei que meu corpo caísse no chão empoeirado e joguei minhas costas contra a parede de tijolos; pensamentos elétricos em cruzamento, o tráfego avassalador. Fui ao banheiro, tomei as pílulas com uísque e senti um nó no estômago que me fez desejar uma morte rápida e indolor. Não era o suficiente, precisava de mais. Fui ao quarto, abri a gaveta que jurei não abrir mais e tirei toda a cocaína que eu tinha. Uma hora depois não sabia quem eu era, o que eu fazia, o que eu pensava. Minha única certeza era a de encontrá-lo, escrever sua história, preencher a lacuna. Algo no cruzamento elétrico me deu a certeza de que minha desesperada sede de autodestruição o traria. E foi então que o vi, sentado nas sombras. Observava atentamente os tijolos gastos e fixou repentino o olhar no meu corpo caído ao chão; lágrimas caíam dos meus olhos injetados, um filete de sangue escorria do meu nariz e sussurros desconexos saíam da minha boca aberta. Imaginei meu estado miserável, visto através daqueles olhos intensos e me envergonhei profundamente. Ele levantou e caminhou lentamente, ajoelhando-se próximo à imagem vergonhosa que eu havia me tornado. Vestia uma blusa de lã bege e uma calça de algodão cinza. Passaria despercebido em qualquer lugar, a qualquer hora. Mas seus cabelos jamais poderiam me enganar, aqueles cabelos longos e ruivos, acesos como fogo. Ele sorriu amigavelmente, não consegui desviar meus olhos.
- Esse não é o melhor caminho, sabe... – ele disse.
Passou a mão quente sobre a minha cabeça e me senti aliviado, como se o meu corpo estivesse repentinamente travando uma luta contra toda aquela química. Ele foi até o quarto, apagou o cigarro dizendo em tom zombeteiro que cigarros não eram coisa boa e que acesos podiam provocar incêndios. Sorria. Retornou, jogando o maço na lixeira e fui percebendo que meus sentidos aos poucos voltavam, estavam mesmo se alinhando. O cruzamento de pensamentos se transformou em elucidação e estava pronto para desvendar o misterioso paradoxo de Destruição quando ele desapareceu nas sombras projetadas pelas cortinas fechadas, deixando aos ventos minhas indagações desesperadas. Fiquei imóvel, apenas imóvel, deixando que as horas passassem até que eu me sentisse bem. A madrugada se enaltecia de escuridão, a tela do pequeno notebook acendeu em azul e meu quarto foi iluminado pela luz azulada. Encarei a tela, sua luminosidade me estagnava; assim perderia minha história. Mas então pensei... Não faz mal... Não faz mal... Desliguei o notebook, a tela apagou e fiquei no escuro, continuando a melodia da canção que se foi, junto à luz azul. “E a luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam”.