quinta-feira, 26 de novembro de 2009

ruído


"Eu e você usamos a mesma língua, as mesmas palavras. Mas que culpa temos nós de que as palavras, em si, sejam vazias? Vazias, sim. Ao dizê-las a mim, você preenche-as com o seu sentido e valor; e eu, ao recebê-las, inevitavelmente preencho-as com o meu sentido e valor. Pensamos que nos entendemos; de fato, não nos entendemos."

Assim que li essas palavras do Luigi (Pirandello), senti algo que arranhava a minha garganta. Era uma comoção lamuriosa, e sufocada. De palavras.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Cem Passos


Para Shion Sono, pelo seu Jisatsu Circle (sem o qual esse conto descarado talvez não existisse).

A mãe limpava o catarro pastoso da criança. O homem de terno folheava suas anotações tiradas de uma pasta de couro. A garota de cabelos vermelhos beijava a nuca da garota de galochas amarelas. A professora pensava nas provas que teria que corrigir ao chegar em casa. O marido se perguntava se a esposa sentiria o perfume barato da prostituta. O gari tentava limpar os seus sapatos gastos com um pedaço de flanela imunda. A ninfomaníaca encarava o homem de terno como se quisesse lhe chupar os ossos. O açougueiro lamentava no semblante o prejuízo do seu empreendimento e o lucro do concorrente. A empregada doméstica pensava em seu salário miserável, insuficiente para quitar todas as dívidas no banco. O advogado pensava em qual anel escolheria para pedir a bela namorada em casamento. O irmão da bela namorada do advogado pensava em terminar seu caso com ele, já que começava a se apaixonar. A senhora solitária se lembrava de não ter colocado ração para os treze gatos. A aeromoça sorria distraidamente enquanto recordava a última transa que tivera com o namorado poeta. O gerente do pequeno supermercado segurava o choro ao lado da filha ninfomaníaca, constatando que a filha estava longe de ser a santa que ele desejava.
E foi então que chegaram, com o barulho estrondoso de cem passadas. Muitos dos que esperavam olharam de soslaio, para em seguida voltarem aos seus próprios pensamentos.
Eram cinquenta, cem passos, em dois segundos, todos igualmente uniformizados. Os garotos vestiam calças azuis, as garotas exibiam saias xadrez. Todos ostentavam o mesmo tipo de blazer, liso, em tom azul-marinho. Pareciam saídos de um anime - riam, contavam piadas, casos, besteiras, discutiam matérias das aulas, falavam dos professores, dos pais, das paixões, do filme do momento...
O saguão vibrou com suas vozes, a balbúrdia adolescente; os hormônios em ebulição.
O relógio marcou 12:15. O metrô estava chegando. Ao contrário dos ônibus e vans, o metrô jamais se atrasa.
As pessoas começaram a guardar os pensamentos. Deveriam guardá-los, entrar nos vagões, procurar lugares confortáveis, e só depois disso tentar retomá-los. Alguns se lembrariam exatamente de onde haviam parado, e retomariam. Outros esqueceriam e mudariam de pensamento como se muda um CD. Outros ainda iriam admirar a vida através das janelas, uma vida que parece outra, vista em movimento.
Aos poucos, os estudantes pararam com a algazarra. O saguão foi inundado pelo peso do silêncio. Agruparam-se lentamente diante da linha amarela, a linha com os dizeres: “CUIDADO! MANTENHA DISTÂNCIA!” As pessoas guardaram seus pensamentos por completo e acharam estranho aquele agrupamento repentino.
O metrô chegaria em alguns segundos.
Os estudantes alinharam-se frente à linha.
O metrô fez-se ouvir, distante. Eram cem pés, e uma linha amarela.
As pessoas mudaram suas feições. Trancaram seus pensamentos e sentiram um pavor repentino.
O metrô aproximava-se.
Os estudantes se deram as mãos formando longa corrente.
O metrô fez a curva, podia ser visto agora.
Os estudantes levantaram os braços em corrente e sorriram.
“UM!”, gritaram.
As pessoas levaram as mãos às bocas abertas.
“DOIS!”, gritaram.
As pessoas sentiram seus corações bem apertados no peito.
“TRÊS!”, gritaram.
Pularam juntos. A longa corrente. O metrô veio veloz e tudo o que as pessoas viram: sangue fresco, vermelho, vivo, brilhante, esguichado na linha amarela, nos vagões prateados, em suas roupas coloridas. Perderam seus pensamentos por completo em meio ao vermelho e parecia que estariam perdidos para sempre (mas você sabe o que dizem... para sempre é muito tempo, não?). Mal pensavam que no próximo dia estariam pegando o mesmo metrô, mesmo que em outras estações, sem linha vermelha, sem corações apertados.

Esqueceriam.

Esqueceriam.

domingo, 15 de novembro de 2009

"Por isso vou correr...


...de bar em bar, comprando maços de cigarros e tratando de fumar todos com urgência, como se a cada tragada sugasse o ar puro que se respira para viver. E nesse dia, quem procurar nos botecos, biroscas e mercadinhos, não vai encontrar um maço que seja, nem em prateleira nem em estoque. Vai dar na televisão: fumo em extinção! Senhores com tosses encatarradas e jovens com dentes amarelados e fisionomia muito pálida vão reclamar em pleno noticiário da noite. Especialistas irão aos programas de maior audiência alertando para os malefícios da ausência do tabaco na vida social: stress e ansiedade, crescimento populacional – uma vez que a nicotina serve de inibidor da libido, agressividade e obesidade mórbida. O presidente fará pronunciamento solene em rede nacional, num apelo emocionado. Boêmios e mendigos dar-se-ão as mãos numa passeata engajada. Uma comoção geral. O surto só terminará quando, após uma crise de consciência, eu decidir sair pelas ruas doando os tais cigarros aos pacotes… E vou interromper missas, entregando aos fiéis, aos coroinhas, ao padre… Jogarei pela janela do ônibus para uma turba ensandecida de pedestres abstinentes… Deixarei até em carrinhos de bebês e nas mãos das criancinhas que brincam no parque… Por fim, faminto, vou catar as guimbas espalhadas no chão de minha casa e as comerei. Mastigo e engulo essas bitucas amargas e fedidas, a seco."

[Tiago Tenório, Garcia vai morrer]

sábado, 14 de novembro de 2009

"Mas por quê?


Por que não ensinam às pessoas, desde bem pequenas, que elas são indivíduos preciosos?"

domingo, 8 de novembro de 2009

O Livreiro Manco


O vento gélido não me fez parar, tampouco a braveza da chuva. Foi um livreiro manco que diminuiu os meus passos e desviou o meu olhar. Ali, sentado sob uma velha marquise, cercado de livros, ali estava o livreiro manco. Sorriu seu sorriso afiado, eu não soube bem como responder. Sentei-me ao lado dele, perguntei seu nome; o livreiro não quis responder. "Que importância tem um nome?", ele foi logo esbravejando. Estava certo, fui obrigado a ceder. Gatos não têm nome, e sabem exatamente o que são, não? Puxou um baseado amassado, o velho livreiro, não conseguiu acender. Ofereci meu isqueiro, em vão. Cigarro em brasa, e ele se pôs a teorizar. Cuspiu sua filosofia sofrida, e naquele instante eu soube: daquele livreiro manco, eu nada mais podia esperar. Teceu sobre dores e desamores, sobre a pobreza de espírito e o que não se encaixa nesse mundo esculpido em desencaixe. Eu nada disse. O que eram as minhas tristezas diante da gravidade muda que forçava aquela bengala? Terminado o baseado ele me disse alguma coisa, mas o álcool tirou minha atenção. Lembro disso: "rapazes... abjeto... tesão..." Acho que surpreendi o velho livreiro manco, acho que o surpreendi num beijo roubado. Não tendo certeza do que ele havia dito, decidi seguir meu trilho, meu roteiro não-escrito. Me afastei, então, voltando à chuva e ao vento, tal como cheguei. Se tirei lição dessa estória... não sei.

sábado, 7 de novembro de 2009

{...do banquete...}


Uma cidade morta. Cidadela de mortos. E ainda assim havia vida; uma chama dançante que aquecia invasores e reluzia relicários. Dia dos Mortos, grilhões em moradias ocultas. E ainda assim havia vida. Se os mortos sentiram-se mais vivos, não saberia dizer. De agora em diante só falo por mim.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

[in]congruência


Fui procurar em meio à chuva alguma coisa que fizesse sentido, e acabei revisitando o Mark. O Mark é desses que mexe comigo. O Mark sabe da poeira que o tempo nina, mas enxerga o mundo com miopia que varre a poeira dos móveis, atira o pó em dança caótica e diz mil verdades sem fatos. O Mark é como o Kurt, rasga a bandeira branca e empurra o capelo, abrindo bem as mãos - "...os aplausos que aguardem, o objetivo agora é alcançar a serpentina dourada que ilude com gracejo." A estrada segue, eu sei, você sabe (mesmo que não saiba, realmente); é inevitável. Mas um disco na mochila é essencial, só não mais que as páginas em branco. Entende? Não, eu não disse que é fácil. Existe um espaço enorme e miúdo entre letras e ponto. Ponto. Existe um espaço metafísico que ultrapassa o saber; existe algum para o sentir?

Não, não se engane... às vezes palavras são pouco, quase nada. Paradoxo se escreve com x, e nunca foi sua sina fazer parte de uma equação.

domingo, 18 de outubro de 2009

butterfly


Mary Jane e seus cabelos em brasa, um fogo que mesmo apagado reluz vivo, enchendo meu peito de luz. Você, um fogo líquido que aquece o meu peito e queima a garganta, trazendo consigo os sonhos mais doces que alguém é capaz de sonhar. Você, Mary Jane, que permanece comigo na linha do trem, essa linha da vida, e escuta comigo as palavras cantadas que só o silêncio é capaz de sorver. Você, que sempre me fez querer ser melhor do que eu sou, que me fez enxugar suas lágrimas com flanela em xadrez; essas lágrimas que me paralisam, que me enchem de medo, me deixam trêmulo e deixam secos os meus lábios – água e sal que quando escorrem, escorrem em profusão –, você chora e o mundo se despedaça em água oceânica; eu, um barquinho rebelde lutando em vão contra o choque furioso de ondas. Você, Mary Jane, que habita os meus sonhos e fecha os meus olhos, e traz (com suas asas) paz aos meus dias de trevas. Você, que amo tanto. Com meu estranho jeito de amar...

sábado, 17 de outubro de 2009

{tambourine}


Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me

I'm not sleepy and there is no place I'm going to...

Eu entendo você que abre os olhos diante de um céu fosforescente, entendo quando não consegue voar por entre estrelas de plástico. Eu me lembro bem de uma tarde nublada, da umidade que a relva molhada deixou impressa nas roupas que você vestia; um peso invisível afundava o seu corpo, um peso que ninguém mais seria capaz de reconhecer. Você molhou os lábios e sussurrou algo, as palavras se perderam com o peso que havia ao nosso redor. Mas ainda estávamos lá, envoltos pelos afagos de puro mistério, a dor que dedilha as pequenas feridas e beija com doçura os olhos cerrados. Era um peso que nos prendia na relva, um peso que nos deixava ali, deitados. Era o desespero, e a necessidade. De partir.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

E vovô disse:


"Dê a um homem triste uma máquina de escrever e você terá um escritor."