quinta-feira, 30 de julho de 2009

"envelheço na cidade"


Acender uma pequena vela, e não lamentar os desejos que se esvaíram no peso dos anos; tirar dos bolsos o que ainda há para ser feito. E compreender que as miudezas são o que de mais precioso pode existir diante de tantas prisões a céu aberto. Aguçar bem os sentidos diante das vacilações - tal como um filhote que abre pela primeira vez os olhos - e aceitar que o exercício das pequenas coisas brinca dançante no cheiro fresco de grama chuviscada. Bebo de um gole só o café, e digo a você: Vai com fé!

terça-feira, 28 de julho de 2009

do espelho, moldado para ela.


“Vocês deviam se lamber mais”, o garoto-gato disse, enquanto Calie se perdia em seus próprios pensamentos. “Vocês... você quer dizer, nós, humanos?” “Sim. Vocês não se lambem o suficiente.” “Que absurdo! Não acredito que estou ouvindo isso...” “Oh, mas você acredita, claro que acredita. Ou não estaria aqui, indignada. Vocês sempre se mostram contrafeitos quando nós dizemos a verdade.” Calie cruzou os braços, fincando os pés com força no chão. “E desde quando entendemos o que vocês dizem?” “Desde o momento em que param para ouvir. Como você está fazendo agora.”

segunda-feira, 20 de julho de 2009

well, that’s just the way it is…


sometimes when everything seems atits worst/when all conspires and gnaws/and the hours, days, weeks/years/seem wasted -stretched there upon my bed/in the dark/looking upward at the ceiling/i get what many will consider an/obnoxious thought:it’s still nice to be
- vovô buk

terça-feira, 14 de julho de 2009

dream a little dream...


Foi timidez ou descaso

Nem "bom dia" me deu

Foi sentar-se ao fim do balcão

Bebo café sem açúcar, prefiro assim

Pois se amar é amargo

Eu já sinto amargura em mim

- Ludov

sábado, 11 de julho de 2009

[Gripe Coalina]


Até mesmo uma gripe tira de campo um coala que sente simpatia por antibióticos. Esse é o mal dos que vivem na selva de concreto: trocam oxigênio puro por fumaça de escapamento; trocam o eucalipto pela alopatia.
E sim... minha árvore é de plástico.
Não, não é biodegradável.
Passar bem!

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Psittaciforme

(Foto de Rubens B.)

Joana presa em casa, na escuridão se estanca de si. Joana que mal mexe o braço direito envolto em tipóia macia de algodão. Joana que observa seus cinqüenta pássaros em seu apartamento escuro de cinqüenta metros quadrados. Essa Joana, que assim como eles não aprendeu a voar. Ela mesma, a menina-moça, tem luz azul nos olhos – reflexo da geringonça que devora no silêncio sua visão –, engole seco, mal consegue respirar. Joana acorrentada que traga suas dores sem expirar fumaça; precisa trocar os passos, calçar os sapatos, precisa voltar a andar. A menina que ao recolher migalhas rasteja pelos tacos, e prolonga os seus bits e os seus bytes, com ares de quem se deixa ao Deus-dará. Embora consciente de que o seu azul será outro, aceita a canção dedilhada que vem abrir-lhe as feridas. Sua canção é de poucos acordes, de gosto amargo e notas ébrias de blues que estranho, estranho, tem cheiro de mar. Joana sorve suas notas com fúria, sorve aos lábios secos sem distinguir cor ou sabor. Ela, que de tanto excremento dos bichos inalar já quase não sabe quais sentidos usar. Joana, que sem asas e passos sente sozinha o mistério que a acoberta, e cúmplice da noite a faz colecionar as penas, todas elas, que caem dançantes embolando o seu cabelo; ela que sozinha preenche as rachaduras do teto, entende mais que o povo da rua sobre a solidão aviária existente – “Mesmo quem voa, cai só. E só...” Joana prisioneira de si mesma, embaralha seus números, tece cordas e nós. A menina-ave que assiste à TV sem som, que prefere a canção dos alados. A ave que não se chama Joana, que não tem nome, idade, razão. Ela que sonha miúdo, que sonha acordada aspirando parágrafos, e depois implora por mais deles, mas desprovidos de repetição. Joana-menina-moça, Joana-sem-nome só quer se livrar de todo o peso daquele algodão; Joana-ave que pragueja sua tipóia e escancara as suas janelas, sem abrir os braços em cruz, sem esquecer os bits e bytes. E penas. E canção. E tacos..., os seus metros quadrados. Joana-sem-nome deseja perder as contas, quer ser passarinho. Joana, frágil Joana, que a cada manhã recolhe os seus pedaços junto à sujeira do ninho.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

- Aritmética da repetição -

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Suor nos dedos

Gosto de escritor que metralha com palavras, gosto de
escritor que sonha à luz do dia.

Gosto de escritor que sangra a alma, gosto de
escritor que ousa ser Ícaro.

Gosto de escritor que não respeita estradas, gosto do
risco da contramão.

Gosto de escritor que tem suor nos dedos, artíficie
descomedido nas doses de transpiração.

Gosto de escritor de mãos firmes; que afaga os
cabelos e aperta o estômago na mesma proporção.

Gosto de escritor que desconstrói o mundo com suas
verdades e dúvidas bem abertas na palma da mão.