sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Pobres cubanos...

- Fidel renunciou.
- Sério?
- Será que agora os cubanos vão poder assistir Lost in Translation?
- Claro! O Papai Noel em pessoa vai levar a primeira cópia.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Icarus


Não sei quantas almas tenho
{{Fernando Pessoa}}

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo : "Fui eu?"
Deus sabe, porque o escreveu.

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Homem de papel

Eu, um homem de papel. Nascido da pressão leve do nanquim sobre o papel branco; da imaculada transformação de tinta escura em palavras. Nasci e cresci, tal como as sementes do mundo, tal como as sombras na noite. "No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus." O tempo escreveu em mim com seus dedos, manchando a celulose das minhas veias com a tinta reluzente dos dias que seguem outros dias. Os dias se tornam anos e o passar dos anos deixou marcas pelos caminhos folheados: palavras escritas, palavras riscadas. Li em mim os versos, os sonetos, e as prosas que não que cessaram o prosear. Reconheci nelas a força, reconheci a ilusão. Meus braços cobertos de tinta ergueram-se em direção ao céu, e contra uma luz pálida e turva de um sol oculto compreendi as linhas que compunham esse meu corpo de papel. Hoje meu papel é gasto - cor de pó e odor de tempo. Hoje minhas linhas se perdem; manchadas, cruzadas, apagadas contra o fundo lido, e relido. E meu corpo já não diz nada, de tanto que ousou dizer. "Não me toque, não me leia", é o que eu direi a você. Não procure entender o que sugerem essas páginas amarrotadas, escritas por tantos, escritas em mim. Sou um homem de papel, mas o esquecimento há de ser o meu fim.