sexta-feira, 25 de abril de 2008

Uni-vos, meus irmãos!!


Será tudo culpa do Bush, ou será que eles não enxergam mais? Será culpa da soja, ou do capitalistic-way-of-life e suas grandes proporções? Serão necessários gritos, ou dores silentes? Quantos deverão gritar, e o que deverão gritar? Levaremos cartazes, escolheremos um líder, ou nos mataremos na arena? Não sei. Trago algumas perguntas, nenhuma resposta.

terça-feira, 22 de abril de 2008

Tornando-se ninguém


por Dd*

Bernardo esqueceu-se de desprogramar o rádio-relógio. Acordou domingo como se fosse segunda-feira. Sentia em sua garganta o tão famoso gosto de cabo de guarda-chuva. Não entendia bem a expressão, mas achava engraçado. Levantou-se e diante do espelho já desconfigurado pelo tempo barbeou-se. "Por que faço isso sempre" questionou-se. Abriu o armário e deparou-se com suas dúzias de camisas verdes e calças marrons. Odiava seu uniforme. Foi quando olhou para a agenda na mesa de canto e abrindo viu que era domingo: "Demônios". Pegou uma calça jeans, seu all star azul e camiseta branca. Saiu. Sem sentir saudades de sua cama ou tomar café, andou por duas quadras. Parando em frente à banca de revistas leu as notícias do dia, e viu sua cidade com os velhos e costumeiros relatos no jornal do dia: Homem degola esposa, três filhos e se mata depois. Os corpos somente foram achados pelos vizinhos devido aos latidos do cachorro faminto. Suspirando Bernardo pensa: "Que porra de vida... e o que eu ainda faço por aqui?". Na padaria pediu um café com leite médio e um pão de queijo. Sentou o mais afastado possível da porta. No primeiro gole notou uma garota de olhos brilhantes e tristes a admirá-lo. Usava um vestido laranja e tinha cabelos curtos. Sentiu que estava num misto de encantamento e susto. Ela aproximou-se com passos tímidos e perguntou: "Qual seu nome?". Sem muito pensar respondeu que era Roberto e sorriu. Era como se um caminhão de serenidade o tivesse invadido. Diante dele a possibilidade de ser outra pessoa... Uma história que pudesse ser construída antes de vivida. Ao escutar a pergunta do que fazia continuou seu relato fantasiado: "Sou topógrafo. Estou de passagem na cidade". Frente ao crescente encantamento da mocinha, Bernardo resolveu não render assunto, era já uma curiosidade incômoda, ou simplesmente ele estava incomodado. Levantou-se e com um seco aceno de cabeça despediu-se. Sentiu que era acompanhado até a saída por aqueles olhos. "O que terei de tão curioso para ela me olhar assim? Tão linda...". Bernardo andou pensando arrastadamente sobre sua vida - "eu, solteiro, 27 anos, contador, morando a duas quadras do trabalho. Se for necessário um resumo de mim seria um nada; um nada com camisa verde e calça marrom". A essa altura estava diante de uma livraria que muito gostava. Comprou um maço de Marlboro, jornais do dia e pediu um café expresso. Sentou e sentiu uma tristeza estranha no corpo.

*

Já com os ouvidos treinados, nesse domingo não teve dificuldade alguma para acordar. O despertador funcionou como se fosse um dia comum. Baseada no tempo disponível até a hora de sair daria tempo de tomar banho, e assim o fez. Colocou o vestido novo, e sentiu-se bonita como há muito não ousava sentir. Pegou o restante do dinheiro que tinha, colocou na bolsa e saiu, como fazia todos os dias. Ela sofria de uma melancolia solitária. Veio para a cidade para estudar e continuou. Formou, arrumou emprego, saiu da casa dos tios, alugou um apartamento duas quadras do trabalho. Contudo não era feliz. A vivência da rotina estabelecida angustiava. Tinha pensamentos fantasiosos e nenhum interesse em relacionar-se com outras pessoas. Tinha, pois desde o dia que esbarrou com seu vizinho no elevador começou a criar o desejo que tudo fosse diferente. Descobriu que Bernardo trabalha no mesmo prédio que o seu, e desde estão estabeleceu uma organização da sua vida em função dos hábitos de Bernardo. Acordava na mesma hora, mesmo porque o rádio-relógio dele é extremamente barulhento. Estava na portaria do prédio quando ele passava, e sem ser percebida iam juntos para o trabalho. Na volta para casa tinha os mesmos comportamentos. E quando possível saía também à noite, na esperança de ser por ele notada. Havia quatro meses que não fazia outra coisa senão isso, ser uma sombra na vida de Bernardo. Cansada, prometeu-se uma ação. Quando entrou na padaria sentia seu coração na garganta. Entendia tão bem o sentido da expressão que já achava engraçado. Ali estava ele, tão radiante com sua camiseta branca. Ela chegou a pensar imaculado, mas não era tão ingênua assim. Com todo sopro de desejo esboçou um sorriso e perguntou-lhe o nome. Sentiu-se uma idiota, fazia milhões de poemas mentais com esse nome, costumava até a dizê-lo de trás para frente, divertindo-se -O-D-R-A-N-R-E-B. Foi como se algo rasgasse de seus ouvidos até seu peito, quando escutou Roberto. "Quem é Roberto meu Deus? Eu tenho certeza que ele chama Bernardo, afinal já vi correspondências dele. Vou tentar perguntar outra coisa". E seu espanto aumentou com a história descabida de que ele era topógrafo e não morava aqui. Diante das respostas e do aceno seco de cabeça sentiu desmaterializar-se. "Cadê a porra do chão para me sustentar?". Até quando a vista alcançou acompanhou seu caminho. Pensou em ir até ele, dizer da loucura que é estar tão apaixonada. Pensou em não fazer nada, não dizer nada. Só lhe restava voltar para casa. Ou não, ainda tinha alguns reais na bolsa. Resolveu naquela hora que realmente Bernardo não existia. Não era ninguém com quem devesse preocupar, nada. Atravessou a rua e conversou com a dona da banca, que já era uma velha conhecida. Folheou uma revista feminina e pôs-se a andar. Parou diante de um lugar que lhe agradou os olhos. Entrou e pediu uma coca cola light lemon. Ficou muito tempo admirando os livros, pegou Pensamentos de um Samurai Moderno, levou ao caixa e foi correndo para casa ler.

*

Bernardo não acreditou quando viu aquela moça tão linda entrando na livraria. Era como se tivesse suas preces atendidas. Sentiu-se um idiota por não ter falado seu nome verdadeiro. Quando ela passou por ele e nem o notou era como se toda a vergonha de querer ser Roberto o invadisse. Docemente ela dedilhava os livros na estante e bebia seu refrigerante. Quando ela saiu apressada, perguntou ao caixa qual livro era, diante da resposta comprou um igual.

Passou o restante da tarde e início da noite lendo. Apagou a luz do abajur e fechou os olhos para esperar o sono. Ela ficou à tarde lendo. Tomou banho no final do dia. Sentiu-se lavada. Fez as sobrancelhas, colocou o pijama e voltou para a leitura. Não tinha nada mais além daquilo, e nem mais o gosto bom nos olhos que sentia desde o dia em que recebeu o sorriso do Bernardo, ou será Roberto?

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Mãos de aconchego...


baseado na peça: Amores Surdos

Sabia que o dia havia nascido, acompanhado de promessas infantis e candura. Não há como deixar de ouvir o canto dos pássaros, que trazem consigo a vontade do despertar. Aterrar os pés no chão; é essa a sensação de acordar. Vigiados pelo sol, meus pés mergulham na maciez acolhedora do carpete alvo. É assim toda manhã. A luz solar ilumina o que me cerca, me preenche de luz, me faz querer voar. Assim não há medo. Assim, não sou eu. As mãos dela afagam meu rosto – mãos de aconchego, dizendo em silêncio que jamais deixarão de estar ali. Minha mãe, meu caminho. Assim ela vai ser, até que as lembranças se percam. Minha irmã no quarto ao lado, já recebeu seu toque materno. Agora são todas minhas, as mãos da minha mãe. O que se escondem nas cortinas dos seus olhos? Que lágrimas são as que ela derrama, quando pensa estar sozinha? No meu quarto não há choro. No meu quarto, só existem mãos, e pés. “O almoço está servido”, ela diz, de avental florido e sorriso perolado. Mal sabe ela, as flores morrem no jardim. Sentamo-nos à mesa, e oramos ao Senhor. Que o Senhor escute minhas preces – eu sempre digo –, que as lágrimas vertidas sequem sob o sol. Minha mãe não escuta. Minha mãe cerra os olhos e pede outras coisas ao Senhor. Minha irmã grita em seu quarto, jogando livros e roupas pelo chão. Foi traída por quem amava, e todos sabem como são difíceis as coisas do coração. Minha mãe corta a carne na cozinha, abafando os gritos com um leve assobiar. Que pretende ela, salvar minha irmã com uma canção? Meu pai nos deixou há alguns anos. Talvez os corações não sejam tão fracos assim. Talvez por isso minha mãe sempre sorri quando vê um vizinho acenando no jardim. Aos domingos almoçamos fora, e as músicas despertam atenção. Minha mãe segura seu choro, eu finco meus pés no chão. Com um olhar tímido noto minha irmã, tentando em vão esconder a solidão. A solidão que a abraça, que abraça a todos nós. Solidão que nos une, solidão que cala a voz. Nossos amores são surdos, e mudos pelo temor de dizer. As mesmas mãos que me afagam, desaparecem ao anoitecer. E noutro dia, voltarei a fincar minhas solas em terra seca, segurando as verdades na palma da mão. Minha irmã engolirá sua dor, e minha mãe secará as lágrimas derramadas no colchão. Água salgada vira sorriso - silêncio, oração. Quer conhecer minha família, caro leitor? Devo alertá-lo: só não venha na contramão. Se espiar por entre nossas janelas, só verá coisas singelas, e acreditando nelas, irá embora, com seu coração na mão.