quinta-feira, 30 de outubro de 2008

A espera...


Não há como prever os caminhos que a vida toma. É possível que brinquemos de deuses, claro - faz parte do jogo. Mas não foram as nossas escolhas que decidiram o destino de Tróia. O destino não é algo abjeto, como muitos pensam por aí. O destino tem D maiúsculo, e Destino não se importa muito com o que venhamos a pensar a seu respeito; ele se contenta em folhear as páginas mofadas de seu livro milenar, preso a ele por algemas fundidas em princípios de mundos. Nem mesmo os deuses de Homero podem com Destino, já que ele é o detentor das histórias passadas, e das que um dia passarão. Ele caminha paciente em seu labirinto, enquanto aqui embaixo - num plano que nos coloca feito formigas diante dele - vivemos cada despertar sob sombras de incerteza. O "sei que nada sei" é de grande aplicabilidade quando penso em Destino. Eu não sei. Apenas ele sabe. O que me resta fazer? Seguir... e esperar. Afinal, Destino tem irmãos, os melhores e piores que alguém pode ter, e alguns deles alimentam a esperança que vem brincar nos meus olhos quando os fecho à noite; uma esperança risonha que me faz acreditar que eu posso sim prever alguns desses caminhos, caso o tombo lá na frente deixe sequelas. Ou ainda, me faz acreditar que os tombos são parte essencial para que surjam algumas boas certezas ao longo da estrada, certezas que tornem a jornada menos amarga. De amargo, basta o café.

"Não sei o que estou fazendo, ele diz. Não saber o que você faz é o passo essencial para saber, sabe...?, ela responde."

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Café & Neon

Rain City
(Pintura de Leonid Afremov)

- Devíamos voltar ao café.
- Sim, de fato.
- Sabe o que dizem sobre a tristeza?
- O que dizem?
- Como tudo na vida, passa.
- E volta?
- Como tudo na vida.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Separados por graus...


"É um mundo pequeno. Você nem precisa viver muito para aprender uma coisa dessas sem que ninguém lhe ensine. Existe uma teoria sobre como no mundo inteiro só existem 500 pessoas reais (o elenco, por assim dizer; todas as outras pessoas no mundo, diz a teoria, são figurantes) e todas se conhecem. E isso é verdade, na medida do possível. Na realidade, o mundo contém milhares e milhares de grupos de mais ou menos 500 pessoas que passarão a vida se encontrando, se evitando, se esbarrando numa improvável casa de chá em Vancouver. O processo é inevitável. Não é sequer coincidência. É apenas a maneira como o mundo funciona, sem consideração pelos indivíduos ou pela adequação..." (Neil Gaiman, Os filhos de Anansi)

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Mr. Chaos


Meu morcego de estimação continua planando pelos corredores. Decidi dar um nome para o bicho, já que agora posso considerá-lo parte da família, mas não consegui pensar em nenhum nome que fizesse jus a ele. Então decidi chamá-lo de Morcego. E enquanto meu morcego Morcego abre suas asas na escuridão, os problemas somados a cada dia me fazem desejar um pouco de caos. Em O Cavaleiro das Trevas o caos é personificado pelo Coringa, ao passo que em V de Vingança Alan Moore o personifica em V. É curioso perceber que as duas personificações atribuem conotações opostas ao conceito da palavra: Enquanto o Coringa provoca o caos movido pela sua "maldade" e patologia (que não ouso interpretar, já que a cada estória um psicanalista o interpretaria de uma forma, e veja bem, não sou e não serei psicanalista...), V causa o caos a fim de que os problemas acumulados sejam eliminados em suas fundações, eliminações essas que possibilitam um recomeço digno (também não pretendo refletir sobre a condição de terrorista que V assume, porque é fato que V é uma figura maquiavélica, que encara suas ações como último recurso para alcançar seu objetivo nobre). A questão que deixo é a seguinte: o caos liberta, possibilitando um recomeço digno, ou destrói em meio à sujeira os alicerces que possibilitam as pequenas reformas que conduzem às grandes? Devemos desejar o papel do Coringa, aceitando a loucura passível do "jogar tudo pro alto", ou devemos desejar a nobreza do mascarado V, e destruir as nossas fundações enfermas, na esperança de que os recomeços ideológicos sirvam de guia na direção a ser tomada? Pode parecer uma escolha fácil, mas hoje sei por experiência que nem tudo é o que parece.