domingo, 29 de março de 2009

Caminhante Noturno

(Arte de Samira G. M.)

Caminho atento, sentindo o abraço opressor da escuridão que me cerca; meus passos leves mal deixam marcas no concreto irregular que conduz ao meu trajeto incerto. Mesmo que você tente, não conseguiria me enxergar no breu que ronda meu corpo dançante. Talvez conseguisse vislumbrar dois minúsculos faróis com brilho cortante de topázio, mas logo os perderia de vista, pois consigo me mover na velocidade do vento que toca a sua nuca numa noite de outono. Minha vida é moldada em mistério, e não carrego promessas do futuro, tampouco o peso do passado – minha coluna é delgada, não suportaria tamanha bagagem. Vivo do hoje, do agora, dos roedores que me fazem algoz, e dos perigos que se escondem nas esquinas. Os pontos luminosos dos postes são minhas estrelas, e os semáforos que brincam com cores são meus planetas. Não possuo asas, por isso devoro quem as possuem. Mas não confunda suas impressões de conclusões fáceis, não trago em meu peito inveja. Trago instinto: uma força maior que o meu corpo, que me atira em todas as direções. Faço uso das minhas habilidades, assim sobrevivo em uma selva de argamassa e odores; assim prossigo meu suave caminhar. É imprevisível a minha estrada, minhas armas não estão em bolsos, elas habitam minha anatomia. É uma guerra diária que eu vivo. Um pulo em falso e sou atirado no abismo decomposto... Sigo então com meus sentidos perfeitos. Sigo sob pontes, e sobre janelas; sempre entre altos e baixos, nunca no meio-termo. Estou sempre a seguir. Sou o companheiro dos que dormem sob folhas, folhas cobertas de palavras que nada dizem a eles, nada dizem a mim. Sou o companheiro dos maltrapilhos sem nome, dos indigentes que não sonham; dos que vivem à margem, os que vivem sem viver. E mesmo assim me mantenho distante, solitário num mundo de tantos, mundo de cegos e surdos, mundo doente. E arrasto minha sede vigilante num mar de armadilhas sem fim. O jardim que me alimenta é o mesmo que tenta me destruir, anônimo e silencioso como eu. Entende agora? Entende agora por que tenho sete vidas?

terça-feira, 17 de março de 2009

Traquinagem


Quis voltar aos tempos de menino, ao esconde-esconde;
já é tarde, e o esconde-esconde não é mais no parquinho.

sexta-feira, 6 de março de 2009

O que vem a seguir...

When the ivy walks
Are far behind
No matter where our paths may wind
We'll remember always
Graduation day
- Beach Boys

A metáfora é óbvia, mas se encaixa no intento. Afinal, são esses os ingredientes que fazem a minha vida ligeiramente parecida com a sua. São as obviedades pelo caminho, os clichês em abundância e os instintos mais básicos. É a longa estrada que chama, uma estrada cimentada em promessas que falam a todos os sonhadores; é a liberdade que às vezes cobra um preço alto, ou sonhos fáceis que quando realizados se mostram no contentamento da surpresa - "É essa então a sensação..." É a longa estrada que chama.

quinta-feira, 5 de março de 2009

"...é só saudade, mas dói tanto quanto amor"


Me conta sobre aqueles nossos dias de comida improvisada e intimidade à flor da pele, e aquelas nossas tardes de vinil gasto e confissões. Me enterra no peito as lembranças do nosso laço de vidas passadas e do amor que o passado-presente moldou nas estradas que um dia percorremos juntos. Me faz sentir de novo o gosto do vinho barato que compramos quando tínhamos o mundo bem amarrado nas nossas mãos, e traz de volta o tom de sépia que coloria as nossas fotografias orgânicas com tinta de novidade. Tira do guarda-roupa aquela samba-canção minha que agora é sua, e vem deitar na minha cama que, amarrotada, ainda guarda o seu cheiro de flor; e joga no meu chão de tacos escuros aquelas nossas idéias revolucionárias que faziam reluzir os nossos corações de estandarte. Me conta onde vão parar os momentos de miudeza, que tiram meu sono durante a madrugada e fincam no meu estômago um prego cego de dor. Onde foram parar os nossos pequenos tesouros? Onde fomos parar...?