terça-feira, 29 de janeiro de 2008

...only happy when it rains


Ode ao cotidiano
((Carol Cunha))

As pessoas se cruzam
No meio da rua
Não se olham , não se ouvem ,
Não se vêem , não se sentem

Caminham em passos largos
Com uma expressão tensa no rosto
Pensando no pão de amanhã ,
Ou nas contas do fim dos dias

São um só no meio de muitos
Perdidos em meio a tantos rostos , tantas vidas
Que raramente se tocam
Que dificilmente se entrelaçam

Todo dia , todo mês , todo ano
Se repete , em erros , acertos , tristezas e alegrias
É difícil enxergar um céu azul
Quando se atravessa ruas que nunca estão vazias

Mas o céu continua lá...
Para quem quiser ( conseguir ou puder ) ver

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Insônia II


Reflexivo
[[Affonso Romano]]

O que não escrevi, calou-me.
O que não fiz, partiu-me.
O que não senti, doeu-se.
O que não vivi, morreu-se.
O que adiei, adeu-se.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Peixe no aquário

"...little fish, big fish
swimming in the water..."

Caminhava sob a chuva, e enquanto observava o céu com seu brilho fosco esperou por um milagre. Milagres não costumam cair do céu, ao contrário de bosta de pássaros... ou suicidas. Então o céu continuou com seu brilho fosco e ele deixou a espera, antes que fosse atingido por bosta de pássaros coléricos ou por algum suicida oportunista. Seguiu cabisbaixo, sem rumo numa pequena cidade que, não raro, lhe parecia tão grande. A chuva molhava as ruas e ele sentia em todo aquele cenário uma tristeza que quase podia ser tocada, e a tocaria, caso não estivesse usando luvas de tecido tão grosso. Inspirou o ar gélido, mas não queria que tudo aquilo soasse torvo ou melancólico, já que não era a tristeza estética o maior dos seus infortúnios. Era a frustração da busca inatingível e do caminhar passo a passo que o dissolvia lentamente sob as gotas pesadas. Foi numa esquina suja que viu uma loja, uma loja de peixes e aquários, de pintura descascada e vitrine empoeirada; e no menor deles, redondo como bola de cristal, havia um pequeno peixe. O vendedor, já ao seu lado, ofereceu o produto (dentre outros produtos). Ele recusou. Não queria levá-lo consigo - aquele peixinho nadador -, assim como não queria que a chuva cessasse. Apenas o admirava. E lamentava. E invejava aquele delicado peixe dourado, com sua frágil e enigmática memória de três segundos...

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

(Motivo)

"Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste;
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada."

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Insônia I

(...)

É fermata. É suspensão:
Borboletas no estômago,
afogadas em suco gástrico.
Um sorriso. Um leve bater de asas;
em seguida, mais nada.

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Entre a estrela e o vôo...

"Estrela, estrela
Como ser assim?
Tão só, tão só
e nunca sofrer..."

- Você tá bem?
- Não sei.
- Vi uma estrela ontem.
- Era bonita?
- Ela brilhava bastante. Pensei em você.
- Por quê?
- Era uma estrela cataclísmica.