segunda-feira, 31 de março de 2008

- Lirtövir

Era uma vez um garoto que dormia. Nascera dormindo, e provavelmente morreria dormindo. Seus pais - indignados com tamanho grau de anormalidade - contrataram médicos, hipnotizadores, mágicos e curandeiros, na expectativa de que o filho abrisse os olhos cerrados. Todavia, após longos suspiros todos lamentavam: "O garoto só sabe... dormir..." Os dias dançaram com as noites, e após uma onda de desesperada agonia, o pai do garoto se viu com as mãos nas têmporas. Apelou como último recurso para um tocador de viola que morava sob a ponte oeste da cidade. Relutante, o maltrapilho aceitou o dinheiro, tirou da velha caixa a viola e rumou em direção ao quarto do desacordado. Entre a noite nublada, e sob a chuva que caía melódica sobre os telhados negros o garoto despertou, guiado pelo som descompassado da viola gasta. Tal como Cesare (o lendário sonâmbulo expressionista) o garoto manteve os olhos cinzentos abertos e a face inexpressiva; não disse uma palavra, tampouco mudou o semblante, que permaneceu impassível por meses. Parentes vieram de longe para testemunhar o grande acontecimento. Chocavam-se, no entanto, quando viam aquela face inexpressiva. Rezavam o Pai Nosso, e cabisbaixos seguiam as pegadas que os trouxeram. Só os pais do garoto pareciam sorrir diante do acontecimento. Talvez aqueles olhos abertos confortassem seus corações. Talvez preferissem um filho morto-vivo, sonhando acordado no mundo desperto a um filho adormecido, vivendo pleno no seu frágil mundo de sonhos...

quarta-feira, 5 de março de 2008

Verbo: Obnubilar


Tudo quanto penso
((Fernando Pessoa))

Tudo quanto penso,
Tudo quanto sou
É um deserto imenso
Onde nem eu estou.

Extensão parada
Sem nada a estar ali,
Areia peneirada
Vou dar-lhe a ferroada
Da vida que vivi.

[...]

terça-feira, 4 de março de 2008

貴方のことを愛しているの

Tive esse sonho, sonhando acordado. Voávamos pelas estradas, protegidos no reluzente escarlate de um Thunderbird-66. Éramos estranhos; e no entanto ali estávamos, lado a lado, na distância próxima que nos aproxima, e distancia. Resistindo às disritmias. Alimentados pelo frescor dos campos e árvores - manchas bucólicas de variados verdes sob nossos olhos cerrados. Assim teria sido em alguma outra realidade intangível. Sentíamos o vento (e "o vento é um presságio que tem toque de lembrança"). A estrada seguia à frente, cinza, amarela, reta, mansa; e seguíamos emaranhados em nossas vontades que talvez colidissem. Colisão. Um sopro seu poderia se tornar terremoto em Osaka, e sob as abas do meu chapéu de cowboy eu apreciaria a grandiosidade da Torre de Tokyo, esperando talvez que um terremoto familiar aos batimentos no peito a destruísse. Como não adorar tudo em você?