domingo, 30 de agosto de 2009

matinê


Queria uma cidade noturna pra mim, queria uma cidade que acompanhasse o meu relógio. Queria poder sair de casa às duas da manhã pra escutar um sambinha enquanto acendo um cigarro e tomo um café. Queria uma cidade com mais luzes, queria mais neon e canções. Queria uma cidade das luzes... uma cidade que, tomada pela insônia, expulsasse o silêncio dominante.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

"amanhã conto piada"


Frase que não pode faltar no meu livro de [auto]ajuda:

Tudo há de ficar bem.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

felinidade


Era um par de mãos quentes que o envolvia; cobertas de calor, afeto, descomedimento. Os pelos negros ouriçavam, sua manhosidade fraca dava margem à dúvida: seria um miado ou um leve ronronar? As mãos seguiam segurando o seu torso enrijecido, mas suas orelhas pontudas dobravam-se em sintonia com as patas. Seu dono - dono das mãos aquecidas - esboçava um sorriso, contentamento de quem busca reciprocidade. E assim apertava com mais firmeza, intensificando no gesto a intenção. Não percebia que o gato não queria afago, tampouco se sentir aprisionado; não notava as garras afiadas que arranhavam o estofado e ameaçavam se deslocar em direção ao calor, à vermelhidão da carne. Não percebeu que os olhos aguçados e acesos do animal miravam outro objeto de desejo. O gato, pobre gato... só queria de corpo e alma alcançar o leite fresco no pires, tão distante de si.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

das pequenas confissões


Entrou no supermercado, comprou arroz pronto, feijão enlatado, beterrabas, alface crespa e algumas garrafas de cerveja em promoção, e enquanto enfrentava a fila (a fila que movia toda uma vida), agia como se não fosse, ou melhor, como seria; como se estivesse fazendo as compras do dia, compras de quem detém nos sapatos a certeza dos passos, de quem faz sua própria comida, de quem sai do trabalho, passa no supermercado para fazer pequenas compras e depois volta para casa, o seu refúgio urbano, onde espera um cão ou amigos ou uma paixão de verão... onde algumas luzes vão se acender, onde se farão os sons, o jazz dançante da Atlantic Records ou as verdades pop de quem canta o que sabe. E por algum tempo as cerimônias e rituais cotidianos vão se justificar, não porque sejam bons e satisfaçam a todos que caminham por aí, mas porque resultaram naquela noite, em que um disco tocaria no aparelho, luzes brincariam com cartazes nas paredes pintadas, e comida seria preparada sem destreza, para uma boca ou duas ou três... para quantas bocas quisessem se aventurar. E mesmo assim haveria solidão, mas haveria menos frustração, porque um pequeno prazer seria realizado - um balão vermelho que seria resgatado antes que alcançasse a janela aberta, antes que se perdesse na imensidão aveludada do céu.

sábado, 15 de agosto de 2009

dust

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

da pequena epifania


Tardiamente (?) descubro Caio Fernando - esse Caio que se antes eu dedilhava com dedos inquietos e incertos, agora me prendeu de vez no sabor da real descoberta. Descubro que "...se estendo a mão, no meio da poeira dentro de mim, posso também tocar em outra coisa. Essa pequena epifania. Com corpo e face. Que reponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo. Sorrio, então. E quase paro de sentir fome."

(É madrugada, e eu respiro as toxinas da cidade.
Mas sinto cheiro de mar. Sinto cheiro de Nice.)

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

on the road?


Ando querendo uma estrada de mil sonhos;
uma estrada que não seja a minha.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

poesia partida


eu levei minha alma pra passear

estranhamente, não chovia lá fora

eu levei meu silêncio e parei pra escutar

em cadências de inverno, vazio não há

eu levei minha gaiola de sonhos;

quebrei a portinhola sem pestanejar

fez-se um bater de asas, sopro entoado

em rimas cantadas, em versos tolos

de pouco em pouco, dissolvo

sem mistério, sem apego

poesia partida -

dessas que não sabem voar